segunda-feira, 28 de junho de 2010

mata-mata

Havia amanhecido, após um final de semana doloroso, não se via uma pessoa nas esquinas, só nos bares. E estar no bar não era uma boa sensação, muita gente me deixa estranho, mal-humorado, você pode passar a vida dentro de um bar, desde que todos os outros estejam do lado de fora. A não ser uma ou duas mulheres bonitas pra não perder totalmente o encanto pela vida. Os amigos já não estavam mais por perto, acho que nunca estiveram. A mulher perfeita deixara de existir, o âmago relutava em existir e as manchetes traziam sangue, as colunas política e o caderno de esportes um mata-mata descomunal.
Fui ao supermercado, comprei um litro de conhaque, voltara, havia brigado com deus e o mundo, aos olhos de deus o inferno não existe, mas ao olho do diabo o próximo morador do inferno já estava se preparando. Havia perdido o medo da morte. Não tinha influência sobre ninguém, os horóscopos eram as consultas prediletas das mulheres, uma de peixes outra de Áries, mas nenhuma ali, na prontidão de ser descrente feito eu. Eram todos felizes, nos bares riam, o que era em demasia fazia minha revelação vir à tona, tudo, tudo era de mentira, exceto a minha verdade. O amor era um pedaço do corpo, do meio pra baixo, como diria o Gabo. A sensação esperançosa havia ruído. Sexo era pecado e amor agora tomava conta. Todos diziam que um bom sexo se fazia com amor. Não deu tempo.
Agora meu nome era “Ridículo” e eu estava no meu canto, no meu quarto, com as janelas fechadas às 14h31min o cheiro forte aninhava meus cabelos e ninava meu sono. Agora era isso; o conhaque, o cheiro e a falta de esperança. Desamor por todos os lados esperando o mata-mata.

2 comentários:

Aline Patrícia disse...

É preferível não acreditar em perfeição alguma, a perfeição não é característica humana, só assim, primando pelo racionalismo, para evitar decepções. Mulher ou homem perfeitos? Nem nos clássicos fomentados na mitologia grega/romana.
Vendo os outros assim, de fora, é muito fácil identificar-lhes felicidade, mas nem toda expressão física reflete um estado interior correspondente. Na rotina apresentada para o personagem, nada de novo, nem a vida que amanhece pelos bares, nem as inquietações no ermo. Talvez o inferno seja melhor que tudo isso, caso se tenha feito valer a pena a passagem recebida. Horóscopo é a pior balela que já inventaram, aliás, toda essa coisa de adivinhação, não acredito que as coisas estejam escritas para nós, mas esse pode ser mais um tipo de escape quando se quer fugir da assunção de que cada um contrói a vida que tem.
Pensando no que o Gabo disse, meio a meio, é como se a gente sempre estivesse incompleto ou estou enganada? Pergunto-me se o destino dos que desejam o completo é sempre frustrar-se ou se é possível guardar algum ânimo na resistência.
Quanto ao Ridículo, ao patético representado no isolamento no quarto, só digo uma coisa:
Assim não, meu bem, assim não.
Entre o mata-mata e a morte certa, há tempo ainda.

Nêmesis. disse...

Completamente identificada, com um adendo...não bebo. rsrs