quinta-feira, 10 de junho de 2010

covardeteo

Agora eu era herói, mas não tinha cavalo. Um Dom Quixote sem Rocinante é a pior espécie que se pode contratar. Ela queria que eu fosse seu herói, que lutasse por ela, mas não se chamava Dulcinéia, muito menos era de Toboso. Queria mesmo que estivesse perto, não havia moinhos-de-vento, mas havia eu. Não era suficiente.
Dormindo de dia, acordado pela noite, acordado na verdade quase o dia todo, tinha insônia. Tinha um amigo viciado em morder a orelha, pára com isso, vai. Ou se era azul ou se era preto. Normalmente era preto, tudo preto, mesmo de olhos abertos.
Ouve a idéia do Neil Young: Get off of that couch, turn off that MTV!
Caralho, Neil Young, eu nem assisto tevê, na minha casa nem tem sofá. Não tenho nem espada, nem cavalo, não tenho armadura, meus moinhos são de mentira, você tem uma guitarra, eu tenho contra-baixo, você tem dinheiro, eu tenho a alma, sorte que você chegou mais rápido ao diabo. Ele já não tem quisto novas almas.
Não, agora eu não era mais herói. Precisa de muita coisa, principalmente coragem e como diria minha Cass: você é covarde, Téo.

Um comentário:

Aline Patrícia disse...

Impossível ler esse início sem lembrar da letra do Chico, com a doçura das crianças que conversam: "Agora eu era o herói/e o meu cavalo só falava inglês..."
Não teve jeito, tive que ouvir João e Maria!
Assim como as coisas nunca são suficientes, sinto que meus comentários aqui nunca são completos. Que engano também, esse meu, não posso falar da covardia com propriedade, nem da prosa, nem da preguiça de quem dorme o dia todo...
Gosto da figura do anti-herói, ele é representação mais humana, menos endeusada e sofre de todos e tantos males que atingem todos os homens, mas a cada um da sua forma, sem juízos. Todo oposto ao herói clássico, mas totalmente distante do vilão cheio de "sex appeal", é uma sina, um papel assumido, sei lá, eu não quero cair nessa armadilha de forjar uma leitura unívoca, meu velho. :)