domingo, 11 de julho de 2010

Capítulo dois. E daí?

Abro as janelas cinco minutos exatamente após tomar meu primeiro gole de conhaque. Pra que ao menos o sol queime minha goela. E bem na hora entra um vagabundo que estava escondido esperando o momento, me dá um solavanco na nuca, me derruba, eu corro à mesa, pego a perna de madeira que é solta e questiono: quer apanhar filho-da-puta? Ele me diz: porra, pensei que era um velho. Você só ouve essa porra dessa música de tiozinho e me disseram por aí que você escreve, não trabalha e só bebe. Pensei que fosse um velho fracassado.
Disse a ele que ouvir Brahms, Wagner e Tchaikovsky não é coisa de velhos. E que isso me deixa mais animado que aquele pagode de quinta-categoria que eles fazem todos os domingos no bar do Joaquim. E que não sou velho como ele pode observar e agora pode dar a volta e ir pra casa. Ou assaltar outra pessoa porque não tenho nada pra que ele leve. Ele disse que não faria, já que estava ali levaria ao menos meus discos, meus vinis eram e são sagrados e ninguém mexe. Aquele filho-da-puta não teria o direito de se meter à prostituta, pra me levar tudo e me deixar rechaçado e com a cara no conhaque.
Peguei o pedaço de madeira e dei na cabeça do vagabundo, caiu feito chumbo, acho que foi certeiro. Não tinha culpa, há tempos não sentia culpa de nada, nem arrumava alguém pra colocá-la. A sociedade e Governo haviam me roubado o pouco de honestidade que tinha, o pouco de caráter já havia sumido com as mulheres e agora deus estava lá, sempre que soube que estava, mas já não acreditava. É como mulher traída, pode desculpar, mas não crê mais em palavras de amor.
Levei o rapaz às escadas, joguei-o, entrei novamente, aumentei meu Idílio de Siegfried e fui ao banho. O Idílio me excitava, toquei uma das melhores punhetas da minha vida. Coloquei roupa, não coloquei cueca, a calça roçava meu pau e isso me fazia sentir mais vivo, era necessário sentir aquilo roçando, como a Alice ao tomar os beliscões, pra saber que eu não estava sonhando. Desci as escadas, pulei o corpo do rapaz ainda lá, jogado, na praça logo à frente havia corpos, muitos, até amontoados. Alguns estourados dos pés às cabeças. Levei o corpo do rapaz até lá e fui ao bar, ninguém olhava na minha cara, haviam me visto levando o corpo pela rua. Mas isso não amedrontava ninguém. Porque eu não era o primeiro. Uma cerveja, um cigarro queimava na minha mão trêmula. Lembro-me que ainda ontem era diferente.

2 comentários:

karine luadek disse...

verdadeiramente bom!

Aline Patrícia disse...

Faz tempo que esse conhaque deixou de ser mera bebida para coadjuvar as tuas narrativas. Uma coisa é certa, ele dá um charme! [risos]
Eu também tenho uma história capitulada, ela também está no capítulo 02, mas nem se compara a essa, é muito mais simplória!
O sono me fez demorar alguns instantes para associar este episódio com o anterior...
O homem é o mesmo, mesmo com o decorrer de alguns (três) meses, fácil reconhecê-lo nos gestos rudes, no espaço, inconfundíveis.
Senti um pouco de pena do ladrão, parece que ele trouxe à tona a constatação da decadência de quem se autocondena. Basta reparar melhor, não é a música que é de velho, mas a vida que se assemelha a tal, pela falta de expectativas.
O que me deixou "tensa" nessa leitura foi a "novidade" da frieza com a qual o próximo é apresentado, não é o mesmo desprezo dado aos medíocres homens nem o desdém conferido às mulheres que ofertam seus corpos, é um toque de banalização da vida. Mas faz todo sentido, sabe, segue um raciocínio linear: se alguém julga que sua própria vida não vale nada, por que valorizaria a de outro qualquer?

"Há corpos por todos os lados e os homens estão no bar."
Sinal de que nem por egoísmo somos capazes de nos salvar.