domingo, 26 de outubro de 2008

Ele chegou, sentou-se em um banco, colocou a pasta ao lado e recostou-se. Parecia chateado com algo. De repente, começou a procurar um melhor jeito de acomodar-se no assento sujo e desconfortável.
Após alguns minutos, seu olhar mostrava uma incomunicabilidade extrema com o lugar: ele era apenas pensamentos. A paisagem ao redor parecia ter uma latência para mudar. Os dias de verão são aquarelas que dão errado a qualquer pincelada. Um vento de chuva arrastou algumas folhas caídas que conviviam com garrafinhas de suco e maços de cigarro: Assim é a convivência das coisas por aqui. Enquanto isso, a sombra das folhas da árvore dançavam em seus pés.
Após alguns minutos de um outro tipo de tempo, ele resolveu abrir a pasta; notou que ela estava entreaberta. Sentiu receio de ter perdido algo. Mesmo assim, tirou uns papéis. De longe, parecia uma carta a ser terminada. Depois que abriu a pasta, parece que ele ficou menor no meio daquele monte de papel branco hospitalar.
Os raios de sol que se mixavam nas folhas das árvores tomavam um aspecto de jogo. Mas a preocupação dele afastava qualquer pessoa que quisesse sentar-se ao banco. Estava com uma turbulência imóvel nítida.
Um tronco de árvore, no lado direito à sua frente, dava uma profundidade à cena. Os veios da madeira, de uma forma ou de outra, assemelhavam-se aos de seu rosto. O clima, aguardando a chuva, deixava as mãos com uma certa umidade desconfortável. O calor passou a ser um tipo de ironia. Sabemos bem falar de desconforto por aqui.
Incomunicável como um boneco de látex, ele ficou com algumas folhas tiradas da pasta sobre o colo. Aqueles papéis preocuparíam qualquer um: poderíam ser documentos importantíssimos! E as folhas caídas das árvores continuavam esvoaçando a seus pés, fazendo desenhos abstratos de descompromisso.
Novamente ele tentava aconchegar-se no banco. O vento soprou, as folhas se levantaram em suas mãos como cartas de baralho de um jogo ganho. Os raios de sol foram-se e restou apenas o vapor que deixaram. As nuvens no céu formavam mil figuras conhecidas e, ao mesmo tempo, nunca vistas. Não é comum levantar a cabeça para ver as coisas hoje em dia: As nuvens brincavam de caverna platônica.
Aquele homem parecia preocupado demais para estar ali. Aqueles papéis, talvez a carta, os envelopes, a pasta… o vento poderia levar tudo para o convívio com as coisas do chão.
Uma leve garoa chegou. Não havia mais sol. A umidade era, agora, visualmente presente: orgânica. Ele, então, olha o relógio, tira-o do braço e coloca-o na pasta.
Pelo lado direito, apareceu uma mulher; sentou-se no banco, cumprimentaram-se. Ele entregou algumas folhas para ela; despediram-se. Ela se levantou, olhou para a esquerda e foi embora. Ele colocou de novo o relógio, organizou a pasta, fechou-a bem com o zíper e a presilha, levantou-se e saiu.



Por Anderson Volpato Rodrigues

3 comentários:

Anônimo disse...

Um relato singelo de com-viver.
Deveras virginiano o observador.

Sempre,
Ana

Anônimo disse...

uou... legal cara. Valeu por ter postado meu conto. Tô esperando um texto seu. Então, a revista literária pode ser uma boa idéia, não?!
Abraços!
Anderson

Marília Rodrigues disse...

É o Sobrenome!!