terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cocaína V!

Eu tinha muita ressaca, aliás, a ressaca me tinha. Resolvi me levantar e ir à casa da Patricia, pedir desculpa pela atitude do dia anterior, claro que por interesse, eu tava morrendo de vontade de trepar com ela, ela de fato fazia falta, era uma das poucas mulheres que me incitavam a mentir só pra eu ter a presença dela. Eu tava com uma puta vontade de cheirar, eu passei na boca, mas era cedo, tive que me virar, pedi pro índio me dar alguma coisa ainda que fosse a sobra. Eu precisava muito, ele me deu, eu disse que pagaria depois. Era um pouco mais que três gramas, daria até a noite, eu esperava que desse mesmo, minha cabeça explodia, eu queria algo pra aliviar. Meu nariz estava doendo, inflamado talvez. Aquele dia não estava legal, era muito sol, muito vento, minha mãe havia ligado, como sempre eu não atendi, o que será que ela continuava pensando de mim? Lembro-me que uma vez ela me disse que eu era diferente dos meus irmãos, que eu era incomum, um bastardo, uma discrepância, que não parecia filho dela, que não tinha futuro, que eu não ligava pros sentimentos dela, nem da família. Aliás, eu não ligava pra sentimento de ninguem, e não era bem assim, eu ligava pros MEUS sentimentos e já era muita coisa.
Cheguei à casa da Patrícia, porta aberta como sempre, barulho de água caindo no banheiro, não quis incomodar, sentei no sofá, havia uma mesa no centro da sala, uma bagunça do caralho, eu era muito organizado, até pra cheirar eu precisava enfileirar bonitinho, enrolar o canudo com uma nota boa, não muito suja, mas a casa dela tava uma bosta mesmo, mas era uma casa muito bonita, como será que ela havia conseguido aquela casa? Ou, ainda que alugada, como ela fazia pra pagar o aluguel? Pensei em mim, se não fosse o dinheiro das coisas que eu escrevia alheio à título, pra qualquer bobagem, até discurso de vereadorzinho de cidade de 200 habitates, se não fosse ao menos isso, eu moraria na rua. Eu tava com vontade de ouvir música, liguei o som da Patricia, tocava Black Sabbath, aquilo me chapava ainda mais.
Ela saiu do banho, tão linda, tão cheirosa, com as bochechas rosadas, coçava o nariz incessantemente, a vagabunda tinha dado um tiro e não me chamou, mas foda-se, saiu do banheiro linda, eu pedi desculpas, ela mandou eu calar a boca, sentou no meu colo, abriu meu zíper, me beijou – ela sabia que beijar me excitava – e meu pau foi ficando duro, ela me beijava, estava pálida, coçou o nariz e desmaiou, vagabunda do caralho, não iria terminar o serviço? Há tanto eu esperava por mais uma trepada e a mina desmaia agora? Começou a tremer, enrolar a língua e quando dei por mim ela sem pulso, fria, e eu lá... com vontade de meter. Olhei pra ela, pensei em dar mais uma antes de lígar pra policia; mas lembrei do Jim do Buk, dar uma com uma viva às vezes já é foda, com uma morta deve ser cruel, liguei pra policia, passei o endereço, saí, encostei a porta, fui pra casa, tomei um conhaque no bar antes. E nunca mais a Patrícia apareceu, não sei se morreu de fato, não sei o que houve, sei que fiquei sem a porra da trepada, punheta não me agradaria aquela noite. E nunca mais conheci uma mulher daquela.
Abri os olhos, lembrei que com 25 anos a vida era melhor que com 48, meu estado era deprimente.
Ter uma vida vivida num cofre, tentar adivinhar o que a vida tinha de melhor sentido, já não era mais pra mim, que tem gente que confunde luxo com luxuria, sempre fui luxurioso, porém nunca luxuoso.
Já não comia muitas mulheres, aliás, não comia nenhuma, não tinha amor, tinha dois pulmões que me martirizavam, meus livros haviam vencido, a língua que eu falava mudara de sentido, haviam regras que não permaneciam mais, eu queria ler Bukowski, mas Bukowski não tinha mais. Queria uma casa, mas não tinha paredes, nem teto, nem rede. Queria um amor, mas não existia coração, até que não quis mais nada. Só um ou dois cigarros pra eu não passar a noite sem companhia.
Nunca tinha conhecido alguem mais doente que eu, mais debilitado, havia algum momento na vida em que eu tentava levantar, mas era só pra sentar na latrina outra vez e cagar tudo que tinha vivido, eu queria morrer, mas morrer não vingava – era de propósito que Deus me ressuscitava toda vez que eu morria.

2 comentários:

Marianna disse...

é um pouco de egoísmo fumar seus amigos

Silvia Mendonça disse...

Téo, ler este teu texto deixou-me extremamente deprimida. Desde que nos conhecemos, eu sabia que tu era cínico e cruel, mas não a esse ponto. Quando te leio, é sempre assim: MEU prazer; MEU tezão;MINHA vontade... Mulher nenhuma te "toca" se não for pela via sexual - pareça que elas não tem rosto, apenas corpo, que tu usas e desfaz sem o menor pudor. Sabes, como poucos, dizer palavras sedutoras, que até convencem que tu estás mesmo interessado. No momento seguinte, ou após o gozo, somos um punhado de corpos que, se eu entendo de espiritualidade, vamos te cobrar mesmo por tudo de "mal" que nos fazes, seja onde teu espírito for parar. Para quem não acredita em Deus, tu estas muito convicto de que o Seu contrário, o diabo, existe - e pensa que é com ele que vais acertar contas. Tomara que não: que no momento da dar, tu tome consciência de que precisas de ajuda - de Deus!
Bom conto!
Beijos da Silvia