sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Cocaína IV!

Acordei com uma sensação de um péssimo gosto na boca, meu nariz escorria, mas estava escuro, eu não sabia o que era, levantei-me rápidamente, fui ao banheiro, tropecei em algumas coisas, fiz barulho, ela ouviu e perguntou se eu tinha algum problema, se passava por algo, eu disse que tava tudo bem, no espelho vi que meu nariz sangrava minha boca tambem, na real eu não sabia o que era tudo aquilo, foda-se, vou cheirar, talvez a coca ajude a cicatrizar, peguei uma carreira, estiquei na pia do banheiro, ela veio pra ver se havia acontecido algo, viu meu nariz sangrar, assoprou o pó e eu mandei-a tomar no cu, ir se foder, filha da puta do caralho, todos os palavrões que houvera aprendido no decorrer de 25 anos soaram hostis de fato num intervalo de dez segundos. Coloquei as calças e ela disse: espera, Téo. Você precisa saber o que há. Não esperei, coloquei a camiseta nos ombros e saí, não morávamos tão longe, andei, andei, passou uma senhora por mim, me olhou, mas minha barba era grande, pensou ser um drogado, um mendigo, um nóia e estava certa, eu parecia sujo, minha roupa estava fedida, há três dias eu não tomava banho, há três dias que eu só cheirava, trepava, bebia e ouvia musica, ouvia Wagner. Fui pra minha casa, na minha casa as coisas eram mais arrumadas, parecia o inverso, minha casa parecia a dela, eu sabia onde estava o algodão, onde estava o soro fisiológico, lavei, limpei, o sangue estava grosso, ressecado, quando passei o algodão senti uma dor fodida. Agora eu podia cheirar em paz, enfileirei uma carreira, cheirei, liguei o som – era tão viciado em música quanto em cocaína – ouvia city and colour a musica: forgive me.

- Téo, pelo amor de Deus, abre a porta, eu quero saber como você está.
- Estou bem, Patrícia.
- Abre a porta.

A porta estava aberta, ela sabia que eu não trancava, empurrou a porta, veio, viu que eu estava bem, eu havia cheirado, estava pego, com uma vontade do caralho de transar, eu queria que ela fodesse bem gostoso comigo, como na primeira vez, agarrei-a, tentei beijá-la, ela tentou se soltar, tentei absorvê-la, ela tentou fugir, como todas as vezes anteriores eu tentava, acontece que eu tentava fugir e agora era ofício dela. Eu não sabia se estava apaixonado ou a porra da carência infiltrava meu ego. Ela disse que me ajudaria, eu disse que a única ajuda possível era trepar comigo, ela não se lembrava de muita coisa dos dias anteriores e eu também não, tinha um abscesso no nariz, talvez a morte atracava-me, talvez eu tivesse medo e queria terminar a minha vida do melhor jeito possível, queria de qualquer jeito sentir aquelas mãos, aqueles seios na minha boca, aquela boceta latejando no meu pau, carreguei-a pro quarto e por fim desmaiei na minha cama, com aqueles lençóis brancos e a bandeira do Palmeiras na parede exposta: Libertadores 99!
Ela não chamou ambulância, ela não me conhecia, ela não gostava tanto de mim a ponto de tentar me salvar, eu faria o mesmo por ela se fosse o contrário, acordei e não sabia o que havia acontecido, estava deitado, na cama, com lençóis brancos, a minha bandeira do palmeiras estava ali na parede e escrita: libertadores 99! Era um orgulho pra nossa torcida, um título incrível, era ainda mais um orgulho pra mim, porque eu sabia que estava em casa. Levantei-me, fui ao banheiro, tomei um banho, não havia me olhado no espelho, me lavei a água ainda desceu um pouco suja de sangue, normal, pensei que tivesse sido do nariz e era. Ela dormia, dormia no sofá, um sofá de dois lugares, pequeno, laranja e encostado à única janela da casa. Fui à minha caixinha, um souvenir que houvera ganhado de uma amiga que trouxe de Londres, era onde eu guardava meu pó, mas a porra estava vazia.

- Patrícia, acorda, acorda, porra, você cheirou tudo o que tinha aqui?

Acordou assustada, com os olhos grandes, que me dominavam se olhando pra mim e disse:

- Joguei fora, joguei tudo fora, você não fará isso novamente, nem eu. Você foi a primeira pessoa que conheci aqui que gosto de sair, gosto de estar, que me realiza, não vou deixar você morrer, não vou aturar que se mate.
- Sem falsas delongas, eu quase morri, você me deixou deitado no mesmo lugar que estávamos quando apaguei, era meu quarto, eu sabia, eu havia te trazido pra cá.
- Não chamei a ambulância porque havia muita droga na porra da caixinha, fiquei com medo da polícia achar algo e nos acusar, mas eu estive contigo, cuidei de você, fiz curativo no seu nariz, você tinha um coágulo na boca, quase morreu sufocado de tanto sangue, você é injusto, Téo. Estou vendo a hora de começar a te odiar antes de amar.
- Eu nunca tive esperanças de que você me amasse, Patrícia. A minha única esperança era morrer trepando contigo.

Ela saiu, bateu a porta, esqueceu o casaco, era o mesmo casaco que usava todas as vezes que nos víamos, talvez sentiu frio, abriu novamente a porta, pegou o casaco em cima do sofá laranja e encostado à única janela da casa. Eu não tinha mais forças pra sair atrás dela, eu não tinha vontade, talvez sentisse falta mais tarde, mas agora eu sentia falta de ficar louco. Fui ao bar, bebi, dessa vez não cheirei, voltei pra casa e tocava city and colour – forgive me.

Um comentário:

Marianna disse...

Agora você tem 25 anos e ouve City and Colour. Bom.